segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um Ciclo

Uma sala com móveis sujos e paredes brancas, amareladas. Pela grande janela entrava calor e um ruído desagradável da avenida que se movimentava lá fora. João almoçava e seu suor escorria pela testa morena fazendo algumas mechas de cabelos brilharem. Maria entra acompanhada e os dois trocam o único olhar permitido pela timidez de ambos. João sem camisa tinha vergonha de expor sua intimidade. Maria se sentia dispersa por todos os detalhes de um lugar tão novo, com um olhar difuso tentava conhecer aquilo que lhe cercava. Dias após se conhecerem, João estava preocupado. Quando estava com aquela moça se sentia levemente relaxado, os músculos anestesiados, o pensamento despreocupadamente solto, disperso. Sabia que iria se apaixonar perdidamente por uma garota tão linda e interessante e que provavelmente não seria correspondido. Maria era apaixonável e com certeza João seria só mais um de seus admiradores no meio em que conviviam. Já conhecia aquele sabor amargo de ingenuamente nunca perceber a diferença entre uma pessoa amistosa e uma atração amorosa.

Andavam lado a lado de um modo descompassado, cada um em seu ritmo. Após o início de uma discussão dali já não saia melodia. Sempre que discutiam João assumia uma postura de defesa, esperava que Maria o salvasse daquela encruzilhada de argumentações. João tinha as mãos no bolso, tentando evitar procurar as mãos de Maria. Não queria ceder outra vez, queria ser valorizado, queria uma prova de que Maria o amava acima de tudo. Maria andava mais rápido do que o normal, movida pela ansiedade de viver aquele momento de angústia mais uma vez. Nesses momentos, as certezas que ela alimentava sobre aquela relação desmoronavam como um castelo de cartas abalado por um terremoto de angústia. Sentia que o rumo de todos os seus planos mudavam de um instante para outro como uma bússola que sente os polos magnéticos da terra inverterem-se inexplicavelmente. O desespero sufocava a fala de João como se aquela tensão criasse um nó em sua garganta. Os dois estavam imersos numa areia movediça de ideias mal compreendidas e quanto mais se debatiam com tentativas frustradas de se fazer entendidos, mais se afundavam sufocando aquela relação.

No apartamento apertado, um quarto diminuto. Preferiam dormir na sala onde improvisadamente a televisão e um aparelho de DVD faziam o papel de um som. Sob o véu de uma música tranquila, desnudos, João abraçava Maria pelas costas, envolvendo com seus largos braços a cintura e o pescoço dela. Em momentos ocasionais ele inalava com força o cheiro da alma de Maria que esvaia pelos seus cabelos e a apertava contra seu corpo. Todas as noites conversavam do mesmo modo, de uma forma despreocupada o assunto fluía entre anseios e experiências. Ali não havia um que falasse mais do que o outro, em uma harmonia incomum os dois iam ocasionalmente preenchendo o silêncio que habitava as madrugadas em que estavam despertos com tintas de tons azuis. O colchão de solteiro intencionalmente se estreitava para que aqueles dois estivessem cada vez mais unidos. Fazia alguns poucos meses que os dois estavam juntos. João sentia uma pressão no peito de dentro pra fora junto com um calor vermelho aí emanado pelo seu chacra cardíaco em ativação. Com muita espontaneidade, sem medir palavras, essa noite João perguntou à Maria como é que duas pessoas se davam conta de que se amavam e o que isso significava. Pela primeira vez desfrutavam de um amor descoberto a dois em tal sincronia temporal que os convencia de que aquela história era diferente.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Da seção Tarantino-Pulp Fiction

Adoro filmes onde início, meio e fim não acontecem necessariamente nessa ordem. Essa idéia de tempo é totalmente desordenada em Pulp Fiction. Isso acontece em outras obras como Brilho eterno de uma mente sem lembranças e é mais sutil em Vanilla Sky.




Outra característica que achei muito marcante neste filme são os diálogos. O filme não é somente baseado nos fatos por si só. Há minutos e minutos de puro diálogo. A meu ver, a violência do filme se contradiz completamente na calma (não diria frieza) e na leveza dos personagens. Um exemplo disto é a cena em que Jules e Vicent conversam tranqüilamente na lanchonete após uma manhã intensamente recheada de mortes e pedaços de cérebro de negro. Fica aí a dica.

sábado, 9 de outubro de 2010

O intitulado.

     Uma função real é dita diferenciável num ponto a se  os valores desta função numa vizinhança de a podem ser aproximados por uma função afim com um resto que é um infinitésimo de ordem superior a 1. Em símbolos:


     Isto significa que o resto r(h), o infinitésimo de ordem superior a 1, tende a zero mais rapidamente que h. Quando uma função possui derivadas até ordem n, através do polinômio de Taylor, podemos aproximar os valores desta função numa vizinhança de a por um polinômio de grau n com um resto que é um infinitésimo de ordem superior a n. Neste caso o resto é ainda mais poderoso, tendendo a zero mais rapidamente que a n-ésima potência de h:


     É bem intuitivo que trabalhar com polinômios é bem mais fácil do que trabalhar com a maioria das funções que a gente encontra por aí. Assim fica claro o quanto o infinitésimo de ordem superior nos auxilia no momento em que optamos a trabalhar com o polinômio de Taylor de uma função.
     Penso que o mesmo ocorre com o pensamento humano. Temos uma necessidade insaciável de entender o mundo em nossa volta, nossos sentimentos e a maneira destes se relacionarem. Então questionamos os acontecimentos, procuramos decifrar o que captamos e buscamos teorias para apoiar nossas conclusões. Isto é, tentamos criar um modelo através da linguagem (símbolos) para "aproximar" nossa realidade e torná-la mais simples.
     Uma questão levantada por dois amigos. Minha língua materna é o Português, certo? Nesta língua eu sou capaz de codificar meus pensamentos e de transmití-los de tal modo que uma outra pessoa conseguiria decodificar esta mensagem e fazer uma leitura da mesma. Neste momento vamos nos atentar ao primeiro passo. Eu penso. Depois eu codifico este pensamento em símbolos próprios da minha língua. Então, na verdade, a mensagem passada nada mais é que uma "aproximação" do que eu pensei. E se minha língua materna fosse o Inglês? Este processo teria uma "aproximação melhor"? E analisando do primeiro até o último passo, como se comporta o "resto" entre o que eu pensei e a leitura que a outra pessoa fez deste pensamento? Uma das coisas que pude concluir disso é que o conhecimento adquirido por experiência ou por reflexão influencia diretamente na capacidade de codificar e decodificar pensamentos.
    Minha meta neste blog é tentar codificar e decodificar (o quê?) com um resto que é um infinitésimo de ordem superior.